Como saber se um bebê está sendo molestado

Escola da Parentalidade

O abuso infantil, infelizmente, não é algo fácil de ser detectado, então como saber se um bebê está sendo molestado?

Espero que ao final da leitura você tenha respondido essa questão e possa fazer a diferença positiva no seu papel de profissional da parentalidade, ajudando crianças e bebês possíveis vítimas dessa atrocidade.
Ou até mesmo no seu papel de mãe, pai ou qualquer outro responsável pelo bem-estar de um bebê ou uma criança.

Mas, antes de falar dos sinais, vamos entender com alguns autores o que é, afinal, abuso infantil.

Como se caracteriza o abuso infantil?

Lima e Alberto (2015) definem o abuso sexual infantil como qualquer ato, contato ou interação sexual praticada por um adulto (ou alguém com diferença mínima de idade de cinco anos). É, portanto, uma violência praticada por alguém com desenvolvimento físico e psíquico maior que a vítima. Isso presume poder sobre a criança e/ou adolescente.

“O abuso sexual infantil apresenta dinâmica própria, caracterizada muitas vezes por segredos, ameaças, retratações, inexistência de testemunhas oculares, entre outros, sobretudo nos casos intrafamiliares” (Peixoto, 2012, inpud Schaefer et al, 2018).

O abuso sexual infantil é um problema social, de saúde e de segurança pública, segundo Schaefer et al (2018). Além disso, caracteriza-se por ser uma transposição de limites de direitos humanos, de papéis, de regras sociais, familiares e ainda de tabus (Lima e Alberto, 2015).

Portanto, agora que definimos o conceito, podemos falar efetivamente de como identificar isso.

Afinal, como saber se um bebê está sendo molestado?

No dia a dia, um profissional da parentalidade (psicólogos,  pediatras, enfermeiros, etc.) pode ficar atento a algumas mudanças das crianças e bebês que podem ser sinal de que ela sofre algum tipo de abuso.

Da mesma forma, o familiar ou pessoa que tutela por essa criança deve cobrar os profissionais próximos a ela. Com a atenção de todos e trabalhando em conjunto fica bem mais fácil identificar.

No artigo de Schaefer et al (2018), pesquisadores afirmaram o seguinte:

“Crianças sexualmente abusadas tendem a apresentar mais sintomatologia clínica do que aquelas que não passaram por esta experiência (Paolucci, Genuis & Violato, 2001). Por exemplo, o abuso sexual tem sido associado tanto a sintomas externalizantes (comportamentos delinquentes e agressividade) quanto a sintomas internalizantes (depressão, ansiedade, isolamento, dificuldades de atenção e queixas somáticas) (van den Heuvel & Seedat, 2013). Ao mesmo tempo, não há um único sintoma que caracterize exclusivamente as vítimas e cerca de um terço das crianças que experienciaram abuso sexual não apresentam quaisquer sintomas (Kendall-Tackett, Williams & Finkelhor, 1993). No estudo realizado por Kendall-Tackett et al (1993), dois clusters de sintomas foram identificados como os mais seguros para caracterizar as crianças vítimas de abuso sexual: comportamentos sexuais e sintomas relacionados ao Transtorno de Estresse Pós-traumático (TEPT). De maneira geral, estudos apontam que de um terço a metade de todas as crianças vítimas de abuso sexual apresentam sintomas pós-traumáticos clínicos significativos (Collin-Vézina, Daigneault &Hébert, 2013)”.

Os estudos sobre abusos e violências infantis sugerem que estejamos sempre atentos às crianças e às mudanças de seus comportamentos. Deste modo,  é possível identificar algum tipo de violência, maus-tratos ou abusos vivenciados por elas.

Observar algumas mudanças de comportamentos (externos ou internos) são fundamentais para detectar a experiência de violência ou abuso infantil.

Por isso, tanto o profissional quanto o responsável devem estar atentos aos seguintes pontos:

Sinais de abuso em crianças e bebês

  • Mudanças de comportamento:
    • a criança se sente ameaçada com a proximidade física;
    • repentinamente começa a chupar o dedo ou urinar fora de hora, quando antes já apresentava controle dos esfincteres;
    • passa a não querer tomar banho ou querer tomar em demasia;
    • passa a apresentar um sono agitado ou pesadelos frequentes.
  • Sinais físicos:
    • inchaço;
    • hematomas ou contusões próximos à área genital;
    • ossos quebrados sem causa aparente;
    • presença sangue nos lençóis ou nas roupas íntimas.
  • Sinais verbais:
    • uso de palavras ou frases muito adultas para seu vocabulário;
    • silêncio inexplicável para o comportamento típico da criança, ou seja, se ela começar a ficar mais calada do que o costume.

De acordo com Habigzang, Koller, Azevedo e Machado (2005 in Lima e Alberto, 2015), a experiência de abuso sexual que vitima crianças e adolescentes gera graves consequências. Assim,  podendo afetar o desenvolvimento cognitivo, afetivo e social dos vitimados de diferentes formas e intensidade.

Saber se um bebê se está sendo molestado é realmente um grande desafio. Principalmente na faixa de 1 ano. Com 3 anos já fica um pouco mais fácil, porém alguns sinais são perceptíveis mesmo se a criança ainda está nos seus primeiros estágios.

O que você pode fazer por uma criança molestada?

Após perceber os sinais, é preciso saber como lidar com essa criança que possivelmente sofre abuso.

Leve-a a ambiente acolhedor

Para ter sucesso, é importante que o profissional da parentalidade ou responsável crie um ambiente acolhedor. Dessa forma a criança se sentirá à vontade para se abrir mais com você.

É fundamental escolher um local onde ela se sinta confortável. Mas, caso não saiba que lugar é esse e a criança já saiba se expressar, pergunte a ela.

Fique sozinho com a criança

Fique sozinho com a criança, pois às vezes o abuso pode vir de seu acompanhante e ela não vai falar na frente do suposto causador do dano. Porém, se a suspeita partir de um dos cuidadores da criança, lembre de acolher também suas angústias e medos.

Observe o tom da conversa

O seu tom de conversa também é importante para promover acolhimento à criança. Tom sério pode assustá-la, fazendo com que diga o que você deseja ouvir, mas que não é a verdade. Sendo assim, o ideal é que a conversa aconteça de modo casual, sem clima ameaçador, para receber informações precisas.

Faça perguntas

Em sua conversa, faça perguntas diretas, que façam com que a criança entenda o que você quer dizer. Sendo assim, é importante que a criança saiba do que você está falando.

Você também pode fazer questionamentos mais abrangentes, como: alguém tocou em você? Esta pergunta aberta pode ter uma resposta como: apenas minha mãe, durante o banho; mas também como: meu tio me toca às vezes.

A criança pode não saber que está sendo abusada, então perguntas abertas, mas diretas, são bem-vindas. O abuso, para ela, pode parecer algo normal, porque é feito por uma pessoa de confiança. Desta forma,  perguntar se alguém a machucou pode não exigir a resposta que você espera. Nesse caso, a criança não entende que o abuso é algo que a machuca.

Escute e faça pausas

Deixe que a criança converse livremente, somente falando após perceber que ela acabou sua atual exposição. Espere pausas longas para continuar com seus pontos de questionamento.

Demonstre preocupação e seja paciente

Mostre que você está preocupado com ela, que deseja o seu bem-estar, mas não a deixe perceber que ela pode estar em apuros. Além disso, paciência, porque muitas vezes a criança recebe ameaças do abusador e a conversa com você pode ser bastante assustadora para ela.

Procure um profissional

Faça o encaminhamento para o psicólogo infantil que poderá trabalhar em conjunto com você. Além de aplicar instrumentos exclusivos do profissional da psicologia que podem ajudar na identificação da experiência traumática e/ou de abuso, violência e maus-tratos.

Por fim, denuncie o abuso!

Os sinais de abuso precisam ser denunciados. De fato, não é fácil saber se um bebê está sendo molestado, porém é necessário denunciar às autoridades.

Sendo assim, você pode fazer isto dizendo para a criança que conversará com alguém para ajudá-la a manter-se segura. Ou então, confidencie para um responsável legal da criança, que não seja suspeito, para que tome as providências.

Assim, ao informar, seja para as autoridades ou para o responsável, você desempenhará um importante papel de apoio, fazendo uma diferença considerável para essa família.

Por isso,lembre-se, fazem parte da rede de cuidadores e de proteção da criança:

  • a própria família;
  • o conselho tutelar;
  • a vara da infância;
  • o disque denúncia;
  • e a delegacia do menor.

Referências bibliográficas

LIMA, J. A. e ALBERTO, M. F. P. (2015). O olhar de mães acerca do abuso sexual intrafamiliar sofrido por suas filhas. Psicologia: Ciência e Profissão35(4), 1157-1170. https://dx.doi.org/10.1590/1982-3703001692013

SCHAEFER, L. S., BRUNNET, A. E., LOBO, B.O. M., CARVALHO, J. C. N.&KRISTENSEN, C. H. (2018). Indicadores Psicológicos e Comportamentais na Perícia do Abuso Sexual Infantil. Trends in Psychology26(3), 1467-1482. https://dx.doi.org/10.9788/tp2018.3-12pt

YATAHAZE (2017). O que você deve fazer ao suspeitar que uma criança está sendo abusada. Disponível em: https://medium.com/@yatahaze/se-voc%C3%AA-suspeita-que-uma-crian%C3%A7a-est%C3%A1-sendo-abusada-o-que-voc%C3%AA-deve-fazer-3e7be9a1152a

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