Quando o adeus não tem despedida; Como lidar com o luto infantil?

Escola da Parentalidade

A chegada de uma Pandemia têm causado impactos significativos na rotina da população devido às novas políticas de isolamento social para frear a disseminação da Covid-19.

Desta forma, em todos os lugares, as orientações da Organização Mundial de Saúde (OMS) é evitar aglomerações, contato físico, usar máscaras e fazer a higiene das mãos com mais frequência.

Além disso, as vítimas do Covid-19 não estão podendo ser veladas pelas famílias e nem terem os tradicionais enterros.


As famílias estão dando o adeus sem despedidas. Quem sofre ainda mais com toda situação são as crianças, que percebem seus pais, avós, tios indo embora, sem mesmo se despedir.

Os enterros na Pandemia

Desde que o Covid-19 chegou no planeta, a vida e rotina de todos nós mudou drasticamente, principalmente das crianças.
Elas estão sem aulas, as escolas fechadas, crises de ansiedade estão surgindo cada vez mais.
Ainda existe o medo de adoecer ou ver os pais ficarem serem contaminados.
Neste cenário caótico, quando um familiar da criança vem a óbito, os velórios e enterros que antigamente podiam receber várias pessoas, tinham duração de algumas horas, hoje já não podem mais ser assim.
É muito triste, mas é a realidade, pois o risco de contaminação aumenta muito!

Os velórios não podem mais ser realizados no Brasil, por tempo indeterminado, especialmente, mas não somente, em casos em que o falecido(a) tenha suspeita ou confirmação de morte por Covid-19.
Os enterros são autorizados com número limitado de pessoas e por alguns minutos apenas. E por medo de contaminação, muitos filhos não vêem os pais sendo enterrados.
Não conseguem se despedir e entender que de fato houve a morte.

A forma de dar adeus mudou muito, para que possamos evitar o aumento de contaminação do Covid-19.
Não temos mais ritos e abraços de conforto, companhia de amigos que seque nossas lágrimas. Às vezes, são despedidas em orações, preces e pensamentos sobre uma foto, apenas.
Para uma criança, é complexo entender que o familiar entrou no hospital e de lá não houve uma saída, que seria o enterro.

Lidando com o Luto do adeus sem despedidas

Para psicólogos, os ritos como velórios e enterros auxiliam no processo de elaboração da perda, faz parte do luto.
Ou seja, é muito importante no processo de compreensão da perda do ente querido e de um novo mundo onde a presença física dele não faz mais parte. Isso ocorre também para as crianças.
Segundo a psicóloga perinatal Nicolle Maccari Soto, dependendo da idade, quem não presencia um enterro, tem mais risco de desenvolver um processo de luto complicado.
É mais difícil lidar com luto assim por não passar pelos rituais de despedida.

O que poderia auxiliar a passar por esse momento de uma forma um pouco menos dolorosa, ainda segundo Nicolle, é fazer os rituais fúnebres de forma remota.
Essa despedida, mesmo que simbólica, ajuda a construir um sentido e um caminho para aceitação da perda.
Além disso, é preciso diálogo sincero com os pequenos, explicando a situação de forma que seja possível a compreensão pela idade.

Tempo e acolhimento

Sem dúvidas, encarar situações como a da morte é sempre algo muito difícil.
Por esse motivo, os adultos que passam pelo luto devem se conectar com seus próprios sentimentos, a fim de compreender o momento.
Sendo assim, muitas vezes será necessário contar com a ajuda de um psicólogo para superar esse sofrimento e todas as fases dele. Vale lembrar que as crianças também podem necessitar de terapia para lidar com essa perda e os traumas que ela traz.
Cada pessoa, sendo criança ou não, vivencia o luto de maneira singular, com momentos melhores e alguns nem tanto.
Essa oscilação é prevista e saudável.

No entanto, o tempo de duração do luto é particular,  alguns podem demorar meses, outros anos.
Uma criança exigirá mais cuidados e atenção, pois muitas coisas elas ainda não consegue compreender por conta da idade.
Mas considera-se que o primeiro ano seja o mais difícil, na medida em que ela passará pelas principais datas pela primeira vez após o falecimento do ente querido.
Ainda de acordo com Nicolle, o apoio e acolhimento de pessoas próximas, também pode auxiliar.
Esse apoio geralmente é encontrado nos velórios, mas agora grande parte será feito a distância. Vivemos o adeus sem despedidas

O luto mais solitário que existiu

Na maioria das vezes, a criança é negligenciada no processo de elaboração do luto.
Existe uma crença de que as crianças não conseguem e não entendem os processos de perda ao mesmo tempo em que não se fala sobre morte, portanto, excluem as crianças dos ritos, tradicionalmente.
Nesse processo atual, é muito importante que se redobrem os cuidados com as crianças ante a perda de algum familiar ou amigo querido.
As crianças vão elaborar justificativas que expliquem o sumiço daquela pessoa, baseadas em suas fantasias e no que conseguem elaborar.
Daí, podem surgir explicações mirabolantes, quase sempre prejudiciais à sua saúde mental e tranquilidade.
Não podemos oferecer o amparo presencialmente.

A Pandemia afastou as pessoas, tirou o abraço, o olho no olho, o beijo no rosto.
Como familiares, a sensação de impotência pode ser devastadora ao ver uma criança sofrendo uma perda tão grande, sem poder se despedir.
As necessidades dessa criança nesse período são variadas e, nesse cenário de pandemia, extrapolam a dimensão psicológica. No entanto, é possível ajudarmos cuidando, da melhor forma possível.
O ideal é envolvê-las de cuidado por meio de mensagens e telefonemas. Em casa, criar atividades que ocupem e distraiam são alternativas. Mas nada em excesso.

Envolver-se é a melhor forma de fazer-se presente, algo tão valioso nesse processo do adeus sem despedidas
Sendo assim, o cuidar é permitir que essa pessoa expresse a sua saudade e tenha a certeza de que não está sozinha nesse momento. Momentos de conversas podem ser muito importantes.
É preciso deixar as crianças falarem e terem suas perguntas respondidas. A falta de clareza e a falta de explicação podem ser muito prejudiciais nesse processo para a criança.

Busque ajuda

Além disso, é essencial  acompanhar os sintomas do luto, a tristeza, a raiva, abrandados ao longo do tempo.
É normal haver oscilações nesse processo, como explicamos.
Portanto, também é esperado que ela retome gradativamente a sua vida, respeitando o tempo pessoal para isso.
O interesse pelas coisas que gostam vão retornando aos poucos.

Quando não há redução dos sintomas e uma retomada da vida, podemos estar diante de um luto complicado, sendo necessária uma avaliação específica de saúde mental, um psicólogo.
Ainda de acordo com Nicolle, os pais podem buscar essa ajuda da terapia para esse o adeus sem despedidas, pois ali terão um espaço de escuta qualificada.
“Será um local onde as crianças poderão falar sobre o ente querido repetidas vezes. Portanto, o sintomas do luto são um ciclo, que vai e volta, até o reencontro de uma estabilidade emocional”, explica.